A conta de água pode vir bem mais pesada em Brusque!

mar
12
2026
Notícias

por: bqmilgrau

A possibilidade de aumento expressivo na fatura de água dos moradores de Brusque voltou ao centro do debate público nesta semana, após declarações do diretor-presidente do Samae, Rodrigo Cesari, sobre como deverá funcionar a futura cobrança da tarifa de esgoto no município.

Em entrevista à Rádio Araguaia, Cesari explicou que a tarifa de esgoto deverá ser equivalente a 100% do valor pago pelo consumo de água. Na prática, isso significa que um morador que hoje paga R$ 100 pela água poderá pagar mais R$ 100 pelo serviço de esgoto, quando a cobrança começar a ser aplicada.

A fala rapidamente repercutiu entre moradores e nas redes sociais, principalmente pelo impacto direto no orçamento das famílias. Embora a implantação de um sistema de coleta e tratamento de esgoto seja defendida há décadas como uma necessidade para Brusque, a informação de que a tarifa pode, na prática, dobrar a parte principal da fatura levantou críticas, dúvidas e preocupação.

O que foi dito pelo Samae

Segundo Rodrigo Cesari, a cobrança será feita na própria fatura do Samae e terá como base apenas o valor do consumo de água, sem considerar outras taxas que já aparecem na conta, como a taxa de lixo. A explicação dada por ele é que a lógica da tarifa seguirá o modelo adotado em diversas cidades brasileiras que já operam com rede de esgoto.

A declaração trouxe mais clareza sobre o impacto financeiro do novo sistema, mas também acentuou a sensação de que a população ainda está começando a entender o tamanho da mudança. Para muita gente, o tema do esgoto era tratado de forma abstrata, ligado à ideia de obra, expansão de rede e melhoria ambiental. Agora, a discussão ganhou um elemento muito concreto: quanto isso vai custar no bolso do morador.

O leilão que definiu a concessão

A nova etapa do saneamento em Brusque começou oficialmente em 27 de fevereiro de 2026, quando foi realizado na B3, em São Paulo, o leilão da concessão dos serviços de esgotamento sanitário do município.

O Consórcio Aegea foi o vencedor do certame. A proposta vencedora combinou 17% de desconto na tarifa e pagamento de outorga de R$ 60 milhões ao município. O contrato terá duração de 35 anos e prevê investimentos bilionários ao longo da concessão para implantação da estrutura de coleta e tratamento de esgoto.

A prefeitura e o Samae têm tratado o processo como um marco histórico, argumentando que Brusque enfrenta um atraso de mais de 30 anos no setor e que a cidade precisava finalmente tirar o projeto do papel. O leilão foi apresentado como a virada de chave para um problema antigo que atravessou diferentes gestões sem solução definitiva.

Por que a discussão é tão sensível

O ponto mais delicado de toda a discussão é que a população tende a perceber primeiro a cobrança, e só depois os benefícios concretos do sistema. Obras de saneamento costumam ser longas, causar transtornos em ruas e bairros e exigir adaptações por parte dos imóveis. Ao mesmo tempo, os ganhos mais importantes — como melhora ambiental, saúde pública, valorização urbana e redução de contaminação — aparecem no médio e longo prazo.

Isso faz com que o debate fique naturalmente mais tenso. De um lado, está a necessidade histórica de Brusque avançar no saneamento básico. De outro, está a reação imediata de quem vê a conta mensal subir de forma significativa.

Afinal, quando a cobrança começa?

Pelo que foi divulgado até agora, a cobrança não deve começar de forma geral e imediata para toda a cidade. Segundo o próprio Rodrigo Cesari, o próximo passo é a assinatura do contrato, prevista por ele para cerca de 40 dias após a entrevista concedida no início de março. Depois disso, a concessionária começa a estruturar a operação.

Ainda conforme a explicação do diretor, a empresa só começa a receber quando o sistema efetivamente entrar em funcionamento, ou seja, depois que a estação de tratamento estiver pronta, a rede implantada e o esgoto começar a ser coletado e tratado.

Na prática, isso indica que a tarifa tende a entrar em cena de forma vinculada ao avanço real da operação, e não de uma só vez para toda Brusque. O cronograma divulgado para a concessão prevê metas progressivas de cobertura, com 25% até 2028, 53% até 2030 e 95% até 2033. Por isso, a implantação deve ocorrer por etapas.

O destino do dinheiro da outorga

Outro ponto ressaltado pelo Samae é o uso dos R$ 60 milhões da outorga paga pela vencedora do leilão. Segundo Cesari, esse valor será destinado ao Fundo Municipal de Saneamento e deverá ser usado para a construção da nova Estação de Tratamento de Água da Cristalina.

Ou seja, embora a concessão trate do esgoto, a arrecadação obtida no leilão também foi apresentada como uma forma de reforçar a estrutura de abastecimento de água da cidade. Esse argumento vem sendo usado pela administração municipal para defender o modelo escolhido.

A polêmica em torno da Aegea

Além da discussão tarifária, a concessão em Brusque também passou a ser acompanhada com mais atenção por causa do histórico recente da empresa vencedora.

Em fevereiro de 2026, a Aegea confirmou ao mercado a existência de um acordo firmado em 2021 com o Ministério Público Federal, no valor de R$ 439,1 milhões, em 15 parcelas anuais corrigidas pelo IPCA. No comunicado, a companhia informou que o acordo se refere a fatos anteriores a 2018, ligados a investigações internas e independentes compartilhadas voluntariamente com o MPF. A empresa afirmou ainda que sua participação ocorreu na condição de interveniente-garantidora.

Além disso, documentos e reportagens citados em discussões públicas recentes apontam que delações homologadas no Superior Tribunal de Justiça em fevereiro de 2025 passaram a alimentar um debate nacional sobre concessões de saneamento envolvendo a companhia. A repercussão aumentou após reportagens publicadas em fevereiro de 2026 relatarem acusações sobre pagamento de vantagens indevidas para obtenção ou manutenção de contratos em diferentes localidades.

Esse histórico não significa, por si só, irregularidade no processo de Brusque, mas ajuda a explicar por que a concessão passou a ser analisada também sob um viés político e reputacional, e não apenas técnico e financeiro.

O que muda para o morador

Para o cidadão comum, a mudança mais visível será a combinação de três fatores: obra, adaptação e custo.

Primeiro, Brusque deve conviver por anos com intervenções urbanas para implantação da rede. Depois, imóveis atendidos pela nova estrutura terão de se conectar ao sistema, deixando de depender apenas de soluções individuais, como fossas e filtros. E, por fim, a conta mensal tende a ficar mais alta quando o serviço começar a operar na região atendida.

Ao mesmo tempo, defensores da concessão argumentam que a cidade não poderia continuar sem uma solução estruturada para o esgoto, especialmente diante do crescimento urbano, da pressão ambiental e das exigências legais de universalização do saneamento.

Debate deve crescer nos próximos meses

Com a assinatura do contrato se aproximando e os detalhes da futura implantação começando a aparecer, a tendência é que o tema ganhe ainda mais espaço no debate público de Brusque.

A partir de agora, a discussão não deve girar apenas em torno da necessidade do esgoto, mas também sobre como a cobrança será aplicada, quais bairros serão atendidos primeiro, como será o cronograma das obras, qual será o impacto real nas contas e quais garantias de transparência e fiscalização existirão ao longo das próximas décadas.

O saneamento, que por muitos anos foi tratado como promessa distante, entrou de vez na vida prática do brusquense. E, junto com a expectativa por uma cidade mais estruturada, veio também a preocupação com a conta que essa transformação vai trazer.

Fontes

Entrevista de Rodrigo Cesari à Rádio Araguaia, com explicações sobre a tarifa equivalente a 100% do consumo de água, cobrança na fatura do Samae e contexto da implantação.

Leilão realizado na B3 em 27 de fevereiro de 2026, com vitória do Consórcio Aegea, contrato de 35 anos e previsão de investimentos.

Detalhamento dos critérios da proposta vencedora, expectativa de assinatura do contrato em cerca de 40 dias e informação de que a concessionária só começa a receber quando o sistema entrar em operação.

Metas progressivas de cobertura do sistema de esgoto em Brusque, com 25% até 2028, 53% até 2030 e 95% até 2033.

Confirmação pública da Aegea sobre o acordo de 2021, no valor de R$ 439,1 milhões, referente a fatos anteriores a 2018.

Referências públicas sobre a homologação no STJ em fevereiro de 2025 e a repercussão das reportagens de fevereiro de 2026 sobre delações envolvendo concessões de saneamento.


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